Leões Valboenses

Bruno Pacheco, 23 anos, é o novo rosto da direção dos «Leões Valboenses», associação que, desde 1963, tem vindo a afirmar-se como uma referência da prática desportiva em Valbom e no concelho de Gondomar. Ao longo de uma conversa estimulante, o jovem dirigente falou-nos do passado desta instituição, do futuro que ambiciona para ela e dos projetos que tem em mente para os próximos anos.

BEATRIZ MARGARIDO, CATARINA FERREIRA E SALVADOR SILVA

 

Em que ano foi fundada a associação?

A associação foi fundada em 1963.

 

Qual a origem do nome da associação?

Segundo os relatos e os arquivos, começou por ser um grupo de nove rapazes que jogavam futebol na ribeira D’Abade. Aliás, a primeira sede dos “Leões Valboenses” foi lá. Decidiram então criar um clube de futebol com o nome “Os Ribeirenses”. Entretanto, esse nome, pelo que consta, já era utilizado por outra associação. Com isto, foram obrigados a mudar o nome para “Leões Valboenses”. Tratando-se de uma escolha aleatória, o nome foi escolhido por estar, à data, em voga. O desejo dos nove rapazes, inicialmente, era implementar a prática do desporto na cidade de Valbom e foi pelo futebol amador e pelo facto de serem o primeiro clube de futebol da cidade que ficaram conhecidos.

 

Quantos sócios têm, atualmente, os “Leões Valboenses”?

Neste momento, estamos com 432 sócios. Quando tomámos posse, fizemos um levantamento de dados e tínhamos um total de 421. Em meio ano, angariámos mais sócios.

 

Qual o principal objetivo desta associação?

A coletividade passou por um processo um pouco complicado. Há quatro anos atrás, a prática de desporto foi extinta. Passámos por uma fase durante a qual praticávamos futebol de salão, mas mesmo esta atividade terminou. No ano passado, atravessámos um processo eleitoral, que deu origem à entrada de uma nova direção, jovem, constituída por mim e por outros membros. Grande parte dos elementos são ex-alunos da Escola Secundária de Valbom. Mesmo que a associação não tenha, de momento, atividade desportiva, consideramos que somos capazes de fazer mais e melhor pela coletividade e comunidade, em geral, do que a antiga direção e de mostrar uma nova faceta, com o intuito de reabilitar a atividade desportiva, não com futebol de salão, mas com o regresso às origens, isto é, com futebol de onze. Atualmente, temos um complexo desportivo que nos dá as condições ideais para esta reabilitação, o que é uma mais-valia. Há alguns anos, os complexos desportivos não apresentavam as condições necessárias para o acolhimento dos atletas. Como o futebol de onze não tem muito sucesso na nossa cidade, queremos, de forma estratégica, introduzi-lo, investindo nos jovens. Queremos também mostrar que a associação tem, além da óbvia faceta desportiva, uma vertente cultural. Não foi por acaso que, na semana passada, organizámos uma noite de fados, no sentido de comemorar o quinto aniversário do reconhecimento do fado como património material e oral da humanidade pela UNESCO.

 

Que meios é que são necessários para cumprir os objetivos? O que falta para alcançar esses objetivos?

Esta nova direção pretende abraçar um novo projeto cultural, e não apenas desportivo. Acredito que todos os nossos objetivos podem ser cumpridos através do associativismo e do trabalho coletivo. Queremos, sem dúvida, inovar, apesar de muitos nos criticarem e de não acreditarem no potencial desta nova direção jovem. No início, eram muitos os que diziam que éramos inexperientes, que não tínhamos grandes conhecimentos na área desportiva, e que, por isso, iria ser difícil o trajeto. A realidade dos acontecimentos tem vindo a provar o contrário. Sem medos, assumimos a direção da associação, mesmo sabendo da sua dívida de seis mil euros, que está a ser paga. Não esquecendo as pessoas que sempre nos ajudaram, tínhamos, quando assumimos a direção, um processo de despedimento em curso, que conseguimos inverter, pensando nas pessoas, com famílias, e não no “umbigo” da coletividade. Este ano, comemoramos o sexagésimo segundo aniversário da associação, mas de uma forma diferente, organizando um jogo de confraternização entre os associados. Acreditamos vivamente que o que é preciso para alcançar os objetivos pretendidos é a boa vontade de toda a associação. O que nos levou a inovar desta forma foi o facto de, quando a coletividade perdeu o futebol de salão, muitos se terem convencido de que esta tinha morrido. De tal modo que os “Leões Valboenses” passaram a ser só a sede e mais nada, sem que houvesse lugar para nenhuma atividade. O que nós queremos é tornar esta associação dinâmica, mantendo os associados, e mostrar mais e melhor dos “Leões”. Tive um professor na faculdade que dizia: “O movimento associativo é um património que une relações entre coletividades”.

 

Qual o motivo que o levou a candidatar-se à presidência?

Em primeiro lugar, esta direção formou-se a partir de um impulso romantizado. Já éramos amigos antes de o processo surgir. Cinco de nós,  membros desta direção, foram colegas de escola e até de turma. Partilhámos o mesmo espaço, o que fez com que partilhássemos igualmente ideias. E havia uma ideia em comum: nós achávamos que conseguíamos fazer mais e melhor do que a antiga direção, não desmerecendo, obviamente, o que herdámos. Muitos criticaram a antiga direção por ter desmantelado o desporto. Eu não penso assim. Passaram-se tempos difíceis, e ainda se passam, principalmente nas associações. Por exemplo, os subsídios foram cortados, as verbas são muito menores, a atividade desportiva já não é fomentada como era antigamente. Para além dos subsídios, os apoios já não são tão elevados. Eu creio que isso criou dificuldades na coletividade. E foi aí que surgiu a ideia de nos candidatarmos. Eu, se calhar, um pouco atrelado aos meus colegas, por ser, provavelmente, aquele que tinha menos ligação com esta associação, pois era sócio há três anos apenas. Acompanhei os “Leões Valboenses” mais na vertente do futebol de salão, vi os “Leões Valboenses” serem campeões  em 2010, no escalão de juvenis, mas, em relação aos outros colegas, que jogaram nesta casa e que eram sócios há mais tempo do que eu, havia aquela perceção de que um clube que teve grande importância na cidade e que marcou, sem dúvida, a história do desporto na freguesia e no concelho de Gondomar estava a desmoronar-se. Mais grave ainda: lá fora, generalizou-se uma espécie de marketing negativo que dava por certa a ideia de que os “Leões Valboenses” eram um clube morto e enterrado, que iria desaparecer da história. E acho que foi um pouco esse grito de revolta que eu e os meus colegas quisemos dar, no meu caso, mais pela minha experiência até ao momento e pela condição de estudante do que pela minha ligação com os “Leões”. Envolvi-me neste projeto pela vontade de ajudar e mostrar que os “Leões” não estão mortos e que vão regressar com força. Queremos continuar a ser aquela coletividade que percorre as artérias do associativismo em Valbom.

 

 

Que projetos e ideias têm para o futuro da associação?

No próximo ano, o nosso grande objetivo é, sem dúvida, reabrir a atividade desportiva, voltando às origens, com o futebol de onze. Pensamos começar pelos escalões iniciados, apostando, neste momento, na formação, e eu acredito que é por aí que se começa a construir a casa, através dos jovens. Depois, vamos construindo outros patamares. Já que falamos em desporto, nada melhor do que retomar a atividade desportiva dos “Leões” no ano em que Gondomar será a Capital Europeia do Desporto. Por isso, creio que o próximo ano será um marco importante para esta coletividade do concelho de Gondomar. No que se refere a outras atividades previstas para este ano, no dia 7 de dezembro, haverá um debate, que está a ser organizado por nós, sobre o orçamento municipal para o desporto e a relação que este vai ter com a Capital Europeia do Desporto. Estarão presentes os representantes dos partidos da Assembleia de Gondomar, assim como os representantes do poder local. Em princípio, contaremos com a presença da vereadora do desporto. Enquanto parceiros do poder local, a nossa ideia ao promover um debate foi tentar perceber, a partir dos vários contributos, como dinamizar a Capital Europeia do Desporto. Temos, além disso, outros projetos para este período de tempo: queremos organizar a primeira ceia de Natal entre associados, assim como um festival de janeiras. Aqui a ideia é fazer uma atividade mais aberta à comunidade, fora das paredes da nossa associação. No dia 19 de dezembro, no âmbito do projeto da federação das coletividades, que tem a ver com a formação dos presépios – o nosso está, no momento, em execução…-, será apresentado um trabalho realizado no contexto de um seminário de mestrado, relacionado com estudos de arqueologia medieval, cujo tema será a evolução dos presépios no pensamento medieval. Ainda no quadro deste tema, queremos criar um museu sobre a história dos “Leões Valboenses”, que funcionará como uma espécie de cartão de visita para a sociedade,  o que, muito provavelmente, não acontecerá este ano. Ainda estamos numa fase embrionária, mas acredito vivamente que, para o ano, com as informações que conseguirmos recolher, sejamos capazes de inaugurar o nosso museu.  Veremos como as coisas vão desenrolar, mas certamente novas ideias irão surgir.

 

 

Na história dos Leões Valboenses qual o acontecimento que achou mais memorável?

Eu creio que terá sido em 1994, ano que marca um pouco a viragem deste clube, ou seja, que assinala a afirmação dos “Leões Valboenses” na cidade, por ter sido a data  em que se sagraram campeões de futebol de onze, na Liga de Amadores. Na altura, eu tinha apenas dois anos e pouco vivi esse momento, mas ouço as histórias e só o facto de as ouvir foi e tem sido, a nível pessoal, marcante. Deu-me vontade de reviver e resgatar esses tempos em que se notava que havia uma paixão pelo facto de se ser valboense. E, para mim, os “Leões” são exatamente isso, mostram que uma pequena cidade, com pouco recursos humanos, extremamente pobre, cuja população combate diariamente dificuldades várias, é capaz de encontrar em si mesma a motivação e a força para se elevar a um lugar de destaque, para manter uma equipa de valores, de solidariedade e de fraternidade e de ser até campeã da Liga de Amadores.

 

Qual foi a primeira coisa que fez como presidente?

A primeira coisa que fiz, não eu, mas  toda a direção, foi uma espécie de auditoria às contas, para ficarmos a saber com o que estávamos a lidar. Por casualidade, tivemos algumas surpresas, que não foram nada agradáveis, mas conseguimos dar a volta por cima. Havia dívidas, coisas que não estavam muito bem explicadas, contas e relatórios que foram aprovados, mas que depois não batiam certo, mas eu creio que a situação está controlada. Eu acredito, sem dúvida, que depois da destruição há a reabilitação, e nós estamos nessa fase.

 

Desde que está na presidência da associação, qual a atividade que desenvolvida que lhe deu mais orgulho?

A atividade de que eu me orgulho mais até aqui foi a comemoração do aniversário dos “Leões”. Quando estamos de fora, não nos apercebemos do trabalho e do tempo despendidos na organização destas ocasiões, mas, agora que estou na direção é que vejo o esforço que a organização de um simples aniversário, por exemplo, requer. Eu, neste momento, para além de ter um trabalho, de estar a fazer o mestrado, que me ocupa bastante tempo, ainda tenho de gerir a coletividade, o que, por si só, também não é fácil. Por isso me deu tanto gozo, apesar da azáfama, organizar este aniversário em particular. Queríamos inovar e dinamizar e conseguimos criar um pequeno vídeo (documentário) que foi aquilo que, dentro do evento, me deu mais gosto realizar, porque ouvimos elementos que pertencem a várias gerações de associados e vimos que todas partilham o amor por esta coletividade. Aliás, este vídeo começa exatamente com a pergunta: «Para ti, o que são os “Leões Valboenses”»?. A nossa ideia foi que cada sócio, numa pequena frase, expressasse a sua paixão pela associação, respondendo a esta pergunta.

 

Na sua opinião, qual a importância cultural dos Leões Valboenses na cidade?

Esta associação tem, realmente, uma grande importância cívica para a cidade, nomeadamente no que se refere à transmissão de valores. Aliás, qualquer associação, seja ela desportiva ou cultural, influencia, de certa forma, a cidade onde está inserida. E o desporto é importante na transmissão de valores e no crescimento cívico da população. Os “Leões”, assim como as restantes associações, assumiram, desde sempre, este papel de transmissão de valores e de estímulo ao crescimento individual. Não é coincidência que muitos dos que aqui jogaram, quando eram mais jovens, sejam hoje pessoas de sucesso, que ocupam lugares importantes como executivos de juntas e assembleias municipais, e isto tem a ver com o espírito de transmissão de valores que aqui privilegiamos. Desportivamente, tivemos também casos de jogadores de futebol de salão que foram convocados para a seleção e para outros importantes clubes.

Não restam, pois, dúvidas de que, no futuro, os “Leões Valboenses” continuarão a desempenhar a sua missão cívica e desportiva, preparando as novas gerações para ampliar o já importante legado desta coletividade valboense.

BEATRIZ MARGARIDO, CATARINA FERREIRA E SALVADOR SILVA

 

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