AEV: Três gerações

Nos caminhos de Abel Neves, Marta Neves e Salvador Silva há um corredor comum: as paredes das várias escolas do atual Agrupamento de Escolas de Valbom, por onde circularam e circulam os vários elementos desta família, que provam que, antes das leis que instituem unidades orgânicas, já elas são uma realidade através da rede de memórias e de afetos partilhados ao longo do tempo.

Foi isso que, em conversas repletas de histórias e estórias, pudemos constatar quando, no passado dia 25 de novembro, ouvimos os seus testemunhos sobre a escola do passado e do presente, forçosamente diversa, mas constante na sua capacidade de suscitar respostas emocionais e de gerar expectativas para o futuro.

Acompanharmos o senhor Abel Neves, enquanto menciona vários aspetos da sua vida, uma vida de trabalho e de resiliência, é viajar, com ele, no tempo e perceber como a escola desempenhou, em períodos muito diferentes da sua vida, um papel fundamental.

A instrução primária fê-la na Escola de Rossamonde, que frequentou da primeira até à quarta classe… Recorda que a escola era “jeitosinha”, mas não deixa de fazer notar, por outro lado, as condições precárias de saneamento e o pó nas salas de aulas como alguns dos problemas com que as crianças tinham de lidar diariamente. Considerava-se um bom aluno, ao contrário de alguns dos seus colegas (em parte, muito em resultado do meio pobre de que provinham), e é aí que nos relata, com descontentamento, as punições físicas exercidas sobre aqueles que errassem alguma pergunta, dando azo a que o erro fosse logo corrigido com “uma dúzia de palmadas nas mãos”, ou sobre aqueles que se encontrassem distraídos, a quem a «cana curta» logo trazia à realidade da aula e da voz do mestre.

Contudo, desses tempos, recorda, com prazer, os ensinamentos aprendidos (para alguns, forçadamente decorados): toda a tabuada, os rios e respetivos afluentes, as linhas dos comboios, o corpo humano, os reis de Portugal, etc. «Aprendizagens para a vida», como lhes chama, feitas numa sala de aula, onde, na parede, um crucifixo se impunha como símbolo de respeito e devoção.  A esse propósito, lembra, também, as aulas ao sábado de manhã (e as orações, pois claro!) com a presença do pároco local, a que se seguia um alegre passeio até ao cruzeiro, ao compasso do hino da Mocidade Portuguesa.

Para Abel Neves, como para tantos outros cuja juventude decorreu nesses momentos conturbados da história nacional, o tempo para o lazer era diminuto, uma vez que ajudar os pais, “que eram da lavoura”, desde bem cedo era uma necessidade…Evoca, com graça, um episódio em que, tendo levado a pastar o gado para os campos da zona da Ribeira de Abade, os animais, com os seus chifres, rasgaram as redes dos pescadores daquela zona. Tempo para brincar só aos fins de semana, com os irmãos, na Quinta do Freixo, ou nos intervalos da escola, o que o leva a recordar, com alguma saudade, o jogar à bola (feita a partir de “meias e farrapos”) e às escondidas, ao pião, etc… Lamenta o facto de, na maioria dos casos, as crianças terem hoje desaprendido a brincar e atribui, em parte, a culpa às novas tecnologias.

Sobre a Escola Marques Leitão, o senhor Abel dá-nos uma verdadeira lição de história. Diz-nos que esta começou por ser uma escola de Desenho Industrial, inaugurada pelo Ministério da Educação em dezembro de 1917, e que, entre 1918 e 1930, data em que passou a denominar-se Escola Industrial Marques Leitão, se foi especializando no ensino e na formação de ourives e marceneiros, dois dos setores industriais típicos do concelho. Era, na altura em que a frequentou, já adulto e casado, aluno do recém-criado curso de Comércio a funcionar, pela primeira vez, em horário pós-laboral.  É com orgulho que se diz pioneiro do ensino noturno em Valbom e, até certo ponto, “construtor” das atuais instalações da Escola, uma vez que foi um dos signatários de uma exposição dirigida ao Ministério da Educação, na qual se reivindicava uma intervenção urgente da tutela na reabilitação do edifício, então fortemente degradado. A conciliação dos estudos com o seu trabalho foi uma tarefa complexa, porém, faz referência à compreensão dos professores, que percebiam que “de dia o esforço era muito e à noite só queríamos era descansar”, mas considera que foi um aluno bastante razoável.

Despede-se de nós, dizendo-nos, de forma muito carinhosa, que acompanha com entusiasmo o percurso do seu neto, Salvador, na escola, fazendo referência aos tempos em que, “quando era mais novito”, este o ajudava nas suas tarefas em casa.

 

Salvador Silva

Salvador Silva sorri, ao ouvir, da boca do avô, a alusão às suas incursões no quintal da família, enquanto nos explica que não existiu um motivo especial para a frequência da Escola Marques Leitão, a não ser a proximidade geográfica da sua casa relativamente à escola, em cujas instalações não nota grandes alterações desde que aí iniciou o seu percurso escolar, no 5.º ano. Contudo, após ouvir os testemunhos do avô e da mãe, reconhece que existiu uma melhoria na generalidade das condições, antes “degradadas”. Caracteriza o espaço como sendo acolhedor e como afável a sua relação com o corpo de docentes e funcionários, embora nos diga, com graça, que “alguns só lá estão para nos chatear”… No entanto, ressalva a importância dos professores que têm a capacidade de o “cativar” e como dessa forma consegue obter melhores resultados.

“Principalmente é preciso perceber as coisas.” – é assim que encara o método de aprendizagem ideal, considerando que a memorização é algo necessário, mas secundário. E é a sua memória que decidimos testar quando lhe perguntámos se sabia o hino nacional e a tabuada do 7, conhecimentos obrigatórios nos tempos de aluno do seu avô… “O hino todo é muito grande, mas, sim, sei a parte que toda a gente conhece…” e, quanto à tabuada, disse-no-la quase toda sem hesitações!

Recorda que, na escola primária, as suas brincadeiras eram as “normais”, típicas dessa fase, no entanto, “não se levavam telemóveis para a escola”, ao contrário do que sucede atualmente, e, tal como o avô, desgosta-o a excessiva importância concedida “ao telemóvel e aos aparelhos eletrónicos”. Por isso, revela-nos que passa a maior parte dos seus intervalos na Biblioteca, à conversa com o seu grupo de amigos.

Quando lhe pedimos uma breve apreciação sobre as diferenças que, em seu entender, separam a sua vivência da escola da que caracterizou a do avô Abel, a resposta foi pronta: os do avô eram indiscutivelmente “tempos mais difíceis” do que os seus. Acima de tudo, salienta que tentar comparar contingências é praticamente impossível, até porque os afazeres da vida adulta que ocupavam, de forma muito particular, o seu avô não pesam sobre ele, o que lhe permite valorizar mais a escola (e o tempo de estudo), pois “é de lá que vêm todas as bases para o nosso futuro”. Enquanto as constrói, vai aliviando a seriedade deste ofício com os momentos de lazer que a história lhe consente, ocupados «a jogar ou a desenhar».

Marta Neves

Marta Neves é a mãe de Salvador, também ela ex-aluna da Escola Marques Leitão, que frequentou até concluir o sétimo ano de escolaridade, em 1992, e tão atenta ao percurso do filho como o pai. Relembra as condições físicas do edifício que conheceu, “muito diferentes do que são agora”. Eram instalações de cimento, “muito frias” e degradadas. Refere um episódio em que um aluno deu um soco na parede e esta, mais parecendo ser feita “de esferovite”, cedeu ao golpe da mão, deixando-se atravessar por ela. Fala de uma escola com bom ambiente, onde imperava uma relação de proximidade entre alunos e professores , de tal modo que a maioria dos jovens acabava por concluir aí o ensino secundário. Não se verificava a “saída em massa” que hoje acontece. “A escola”, explica, “era uma família”.

A este propósito, evoca, sorridente, o episódio em que o seu professor de Educação Musical, que ouvira, ao passar certa vez diante da sua casa, o seu ensaio de flauta, elogiou o desempenho artístico da habitante daquela “quelhinha”, na tentativa de inspirar alguma harmonia sonora aos desafinados exercícios da turma.

Tendo sido uma adolescente muito faladora, nunca, nas suas palavras, esse comportamento lhe prejudicou os estudos, caracterizando-se, antes, como uma aluna “média alta”. Desses tempos de juventude reteve a memória das brincadeiras «de rapariga» durante os intervalos (claramente distintas das «brincadeiras de rapazes»…) e também da “penitência” imposta pelos dias chuvosos, em que, acoitados sob os cobertos, para se deslocarem, todos tinham forçosamente de percorrer um corredor humano movidos a «cachaços»…

Mas eram dias «intensos», passados a conversar animadamente com os colegas ou a discutir os grandes êxitos – televisivos, musicais, etc… – lançados na época, na esperança difusa de virem a ser os próximos agentes da cultura de massas. Lamenta, como o seu pai, que essa capacidade de estar com os outros se tenha perdido. Cada um “está com o seu telemóvel e ninguém conversa”.

Por fim, menciona que se sente aliviada diante do percurso do seu filho na escola, embora reconheça que haja aspetos a melhorar, mas que são fruto do meio em que esta se encontra envolvida.

Ouvir os depoimentos dos elementos desta família sobre a escola é compreender que, para além de ser uma instituição de transmissão e certificação de saberes académicos, esta foi e continua a ser, apesar das várias alterações introduzidas pela história, um foco de ricas experiências sociais e humanas que permitem a cada pessoa projetar uma hipótese de ser e de estar em sociedade.

Mais importante ainda, é como herança de afetos, que sobrevivem sob a forma de memórias transmissíveis, moldadas e iluminadas pelo tempo, que a sua influência se vai exercendo sobre os novos rostos a quem cabe alargar este edifício em construção contínua que é, também, a escola.

Assim sucedeu com Abel e Marta Neves e desejavelmente sucederá com Salvador Silva, três das vozes que atestam as várias vidas do agora Agrupamento de Escolas de Valbom e a saúde de uma organização que reclama para si a vontade de cimentar um forte espírito de pertença e de comunidade.

DANIEL NEVES E RUI RESENDE

 

 

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